Kemari, o ancestral do futebol no Japão

Neste sábado, dia 3 de novembro, será a oportunidade de ver uma demonstração de kemari no Templo Tanzan, em Nara. Apenas duas vezes por ano os monges fazem a exibição, em abril e novembro

O Templo do Futebol existe! E não é o Maracanã, para os brasileiros, nem Wembley para os britânicos.

Com tradição de mais de 1.400 anos, todos os anos, apenas em abril e novembro é possível ver uma demonstração de kemari praticada pelos monges do Templo Tanzan, que fica em Sakurai, pequena cidade coligada a Nara, na província do mesmo nome.

O Japão e a China são considerados berços do futebol. Porém, os ingleses organizaram as regras da forma como praticamos o futebol nos tempos atuais.

Kemari (蹴鞠) é a junção dos ideogramas Ke, “chutar” e Mari, “bola”, na leitura japonesa. Na China, de onde é originário, era chamado de Cuju, pela leitura em mandarim, com o mesmo significado. Então “chutar bola” é semelhante à palavra futebol, do inglês, foot (pé) e ball (bola).

Documentos registram que o kemari foi introduzido no Japão durante a Reforma Taika (ano de 645) através da China no século 7, junto com o budismo.

O Tanzan Jinja é um templo xintoísta/budista (do período anterior à divisão dessas duas religiões) encrustado entre vales, no Monte Tonomine, construído no ano 678 e dedicado a Fujiwara Kamatari (614 – 669) um importante articulador da Reforma Taika, com base nos modelos da China e do Confucionismo.

Nesse templo o Kemari Matsuri é realizado no dia 29 de abril (Showa no Hi) e no dia 3 de novembro (Bunka no Hi).

Antes do início do kemari, os shinshoku (sacerdote xintoísta) fazem uma oração com oferendas aos Deuses. Os oito jogadores se posicionam em campo, eles são os mariashi (mari: bola; ashi: pé) e vestem um quimono vistoso chamado kariginu, ao estilo do Período Heian (794 – 1185). A bola é conduzida ao campo encaixada em um galho de árvore da época.

O locutor segue explicando a história do kemari. Com cerca de 20cm de raio e 150g, a bola é construída de pele de veado. Não há vencedores nem perdedores neste jogo pois é um ritual aos Deuses. Lembra a nossa conhecida embaixadinha. O objetivo é manter a bola sem cair ao chão o mais tempo possível. A regra é clara! Pode chutar apenas com o peito do pé direito, não pode chutar com a sola do pé nem cabecear. Ao passar a bola para o companheiro, deve-se entoar o nome de um dos deuses OU, ARI, YAU, nomes simplificados alusivo às divindades Geanrin, Shunyoka e Toen, respectivamente.

O campo oficial é chamado de kikutsubo ou kakari e em cada canto deve-se plantar uma árvore: sakura (cerejeira) no canto nordeste; yanagi (salgueiro) ao sudeste; kaede (bordo japonês) a sudoeste e matsu (pinheiro) a noroeste, cada qual representando respectivamente as estações do ano, primavera, verão, outono e inverno.

Durante o Período Kamakura (1185-1333) o kemari ganhou popularidade entre os samurais e no Período Edo (1603 – 1867) passou a ser praticado pela gente comum, tornando-se o “esporte do povo”.

Em meados do século 19, a popularidade caiu a ponto do Imperador Meiji criar a Associação de Preservação do Kemari, para manter o esporte vivo ao menos em ocasiões festivas.

Templos de Kyoto e Nara com demonstração do kemari

– Kemari Hajime – Shimogamo Jinja – 4 de janeiro

– Festival do Dia da Fundação Nacional – Kamigamo Jinja – 11 de fevereiro

– Abertura Especial do Palácio Imperial de Quioto – Quando o Palácio é aberto ao público, duas vezes ao ano, na primavera e outono.

– Grande Festival da Primavera – Shiramine Jingu – 14 de abril

– Kemari Matsuri da Primavera – Tanzan Jinja (Sakurai, Nara) – 29 de abril

– Tanabata e Seidai Myojin Matsuri – Shiramine Jingu – 7 de julho

– Kemari Matsuri do Outono – Tanzan Jinja (Sakurai, Nara) – 3 de novembro

Acesso ao Tanzan Jinja (Sakurai): partindo de Osaka, embarcar pela linha Kintetsu Osaka na estação inicial Uehonmachi. Na estação Sakurai, pegar ônibus n° 1 e descer no ponto final, Tanzan Jinja.

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